DESAFIO | Apagão Imprevisível

há 5 meses     -     
DESAFIO | Apagão Imprevisível
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LIGA ACADÊMICA DE CARDIOLOGIA DA PARAÍBA (CARDIOLIGA-PB)
Autores: Tiago Wanderley Queiroga Lira e Rayanne Kalinne Neves Dantas
Orientador: Ivson Cartaxo Braga
Instituição: Faculdade de Medicina Nova Esperança (FAMENE)

Um acadêmico de medicina, mais precisamente no décimo período (internato), estava acompanhando uma partida de basquete realizada no clube da cidade, disputada por atletas veteranos (entre 40 e 60 anos), a qual seu pai estava disputando. Na metade do jogo, um atleta da equipe adversária, sentiu um “mal estar” no meio da quadra e foi ao chão. Imediatamente, o aluno, tendo em mente os conhecimentos adquiridos ao longo do curso de Suporte Básico de Vida (SBV), se dirigiu ao local onde se encontrava a vítima para iniciar o que manda este protocolo. Chegando ao local, ele constatou que o senhor não respondia aos estímulos verbais e dolorosos, e em seguida, pediu para alguém próximo solicitar o serviço médico de emergência por telefone celular. Após isso, ele verificou se o paciente respirava, colocando o dedo próximo às narinas, e em seguida, verificou se havia presença de pulso na artéria carótida, cuja verificação durou 25 segundos. Foi constatado pelo aluno que a vítima em questão estava sem respiração e pulso, e sendo assim, solicitou um Desfibrilador Externo Automático (DEA) presente no clube e iniciou a Reanimação cardiopulmonar (RCP) enquanto esse equipamento não chegava. As compressões torácicas foram realizadas na metade inferior do esterno, na linha intermamilar, deprimindo o tórax em 5cm, de forma rítmica e regular, com uma frequência de compressões de 100 a 120/minuto.
O aluno pediu ajuda a outro atleta, que fez respiração boca a boca, sendo 1 ventilação a cada 30 compressões torácicas. Passados 8 minutos desde o início da PCR, o DEA chegou, e o aluno terminou o ciclo de RCP já iniciado, para então acoplar as pás no tórax do paciente e ligar o aparelho. O mesmo verificou que o ritmo cardíaco não era chocável, sendo reiniciado a RCP por aproximadamente 2 minutos, tempo em que o DEA fez nova verificação do ritmo. Desta vez, o ritmo era chocável. Após o choque e novo início de massagem cardíaca, a vítima começou a se movimentar, dando sinais de retorno à circulação espontânea. A partir deste momento, a vítima foi mantida em decúbito dorsal, e após 14 minutos do início do acontecido, o serviço médico de emergência chegou ao local para ser iniciado o suporte avançado de vida (SAV).

 
1. Quais são os ritmos chocáveis e não chocáveis, vistos pelo DEA?
Chocáveis: fibrilação ventricular e taquicardia ventricular sem pulso
Não-chocáveis: assistolia e atividade elétrica sem pulso.
 
2. A constatação de que se tratava de uma PCR (verificação de pulso e respiração), foi feita de modo correto?
Não, as diretrizes de 2015 mantiveram a recomendação para a checagem de pulso pelos profissionais da saúde, enfatizando que isso não deve levar mais que 10 segundos, e que deve ser feita concomitantemente à avaliação da respiração, se presente ou se ausente/agônica (gasping).
 
3. Durante o processo de reanimação cardiopulmonar, o aluno comete algum erro?
As compressões torácicas executadas pelo aluno foram de alta qualidade, segundo as diretrizes do ACLS-2015. Entretanto, levando em consideração que a vítima é um adulto, a relação compressão-ventilação está errada. A recomendação para profissionais de saúde realizarem a RCP com ciclos de 30 compressões torácicas seguidas de duas ventilações, até a chegada do desfibrilador (independentemente de haver um ou mais socorristas). Isso porque existe a preocupação de que compressão torácica sem ventilação, por períodos prolongados, pode ser menos eficaz do que a RCP convencional, uma vez que o conteúdo arterial de oxigênio vai diminuindo à medida que a duração da PCR aumenta. 
 
4. No caso acima, pudemos observar que houve atraso na utilização do DEA. Qual o tempo ideal que a desfibrilação deve ser iniciada?
O suporte básico de vida é fundamental para impedir a deterioração das condições da vítima. No entanto, a medida principal que determina melhor prognóstico na PCR é o acesso rápido ao DEA. Quando a desfibrilação é realizada entre o 3° e 5° minuto da PCR em ritmo chocável, a sobrevida é tão alta quanto 50 a 70%. Assim, a desfibrilação precoce é de grande importância e somente ocorrerá se o sistema de emergência for acionado, solicitando imediatamente o DEA. No presente relato, ele deveria ser utilizado assim que seu uso estivesse disponível, devendo-se interromper a RCP para avaliar a verificação do ritmo.
 
5. A atitude do aluno em relação ao paciente após o retorno da circulação do paciente foi a mais prudente? 
No âmbito do SBV, após a observação do retorno da circulação espontânea do paciente, ele deveria ter sido colocado na posição de resgate, ou seja, decúbito lateral, mantendo a via aérea aberta. Caso não haja o retorno da circulação espontânea, deve-se reiniciar as manobras de RCP, junto às orientações do DEA, até a chegada do suporte avançado de vida.
 
REFERÊNCIAS: 
PCR American Heart Association. Destaques das Diretrizes da American Heart Association 2015 para RCP e ACE. Edição em português: Hélio Penna Guimarães. EUA: Amerian Heart Association; 2015.
            Goldman L, Ausiello D. Cecil: tratado de medicina Interna. 22. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2005.
            Bonow RO et al. Braunwald’s Heart Disease - A Testbook of Cardiovascular Medicine, 9th ed. Philadephia: Elsevier Saunders; 2012.

A Liga Acadêmica de Cardiologia da Paraíba (CARDIOLIGA-PB) surgiu em 2016 a partir de um grupo de alunos com o interesse em comum no estudo e aprofundamento acerca desta especialidade, com o apoio essencial de grandes mestres. Hoje orientada pelos cardiologistas Ivson Braga, Roberta Barreto e Guilherme Mendes, a Liga realiza discussão de casos clínicos e atualizações científicas, aulas teóricas e seminários; organização e participação em eventos como congressos, simpósios e ações de educação em saúde; produção científica; estágios semanais na área de cardiologia clínica, cirurgia cardíaca, hemodinâmica (cardiologia intervencionista), imagem cardiovascular (ecocardiograma) e cardiointensivismo. A liga tem parceria com a Sociedade Paraibana de Cardiologia, junto com a qual realiza diversas atividades de extensão.

 

A CARDIOLOGIA-PB é a responsável pelo livro Manual de Cardiologia para Graduação,  criado com o intuito de condensar as informações essenciais para o aprendizado e prática cardiológica durante a graduação, possibilitando a criação de um conhecimento duradouro que permita uma prática médica mais segura, atualizada e científica.

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