Câncer do trato biliar

há 1 ano     -     
Câncer do trato biliar

O câncer de trato biliar é o segundo câncer hepatobiliar primário mais comum, só perdendo para o câncer hepatocelular. São diagnosticados cerca de 14000 casos novos por ano de câncer do trato biliar nos Estados Unidos. Os tumores do trato biliar são tradicionalmente divididos em tumores da vesícula biliar, dos ductos extra-hepáticos, ou da ampola de Vater, enquanto que os tumores dos ductos intra-hepáticos entram como neoplasias primárias do fígado. Os tumores intra, extra-hepáticos, e peri-hilares são conjuntamente chamados de colangiocarcinoma.

Embora o número varie muito de região para região cerca de ? de todos os casos de colangiocarcinoma são tumores peri-hilares, ¼ são tumores extra-hepáticos distais e o restante são intra-hepáticos. Na maioria dos casos a frequência de todos esses tipos de câncer do trato biliar aumentam com a idade, acometendo principalmente a faixa dos 65 anos.

Como a maioria dos tumores do sistema digestivo, os tumores primários são, em grande parte, carcinomas. Dentre os tipos histológicos, os mais comuns são adenocarcinoma, carcinoma papilar e carcinoma mucinoso.

O estadiamento dos cânceres do trato biliar é definido pela classificação TNM (tumor-linfonodos-metástase). De maneira geral, o estadio 0 é o carcinoma in situ; I tem invasão limitada à mucosa, muscular ou ampola de Vater; no estadio II observa-se invasão local; em III há acometimento de linfonodos regionais ou tecidos adjacentes; e em IV ocorre invasão do fígado e outros órgão, bem como metástases a distância.

Litíase biliar não está associada a todos os casos de tumor do trato biliar, sendo encontrada em cerca de 25% deles. No entanto, está presente em 75-90% dos carcinomas de vesícula biliar. Tumores da vesícula estão mais ligados ao sexo feminino, ao passo que os colangiocarcinomas têm uma frequência maior no sexo masculino.

Os fatores de risco dos cânceres hepatobiliares estão relacionados com os diferentes segmentos da árvore biliar. O câncer da vesícula biliar está mais associado com pacientes que possuem cálculos biliares, principalmente cálculos grandes e dolorosos. Além disso, também está relacionado ao sexo feminino, obesidade, alta ingestão calórica, infecção bacteriana da bile (principalmente por Salmonella typhi), pólipos e calcificação da vesícula. O colangiocarcinoma, tanto intra quanto extra-hepático, é uma complicação já bem conhecida da colangite esclerosante primária, mais frequente em homens. Outros fatores de risco para colangiocarcinoma incluem adenoma íleo-ductal, papilomatose biliar múltipla, cistos do colédoco, doença de Caroli, e até mesmo o tabagismo. Porém, muitos dos casos de colangiocarcinoma ocorrem em pacientes sem fatores de risco óbvios.

O diagnóstico do câncer de vesícula não é simples, uma vez que os sintomas não são específicos. A apresentação mais comum decorre da obstrução do ducto biliar, e inclui icterícia, acolia, colúria e prurido.Dor no quadrante superior direito é o sintoma mais comum no tumor de vesícula, mas não no colangiocarcinoma. Fadiga, mal-estar e perda ponderal geralmente acontecem na doença mais avançada.

Alterações laboratoriais podem ocorrer por obstrução do fluxo biliar ou por secreção de produtos anormais. Fosfatase alcalina, bilirrubina, gama-glutamiltransferase e ácidos biliares estão tipicamente elevados em razão da obstrução. Marcadores tumorais, como o CA 19-9, também podem ser usados para avaliação, principalmente naqueles pacientes com colangite esclerosante. Outra atribuição desse marcador é aferir a eficácia do tratamento e a recorrência da doença.  

Exames de imagem são recursos importantes para a investigação diagnóstica. O primeiro a ser realizado é a ultrassonografia do fígado e vias biliares, no entanto, tumores periampulares, perihilares ou extra-hepáticos podem não ser detectados por esse método. A tomografia computadorizada (TC) detecta mais facilmente massas intra-hepáticas e dilatação de ductos intra-hepáticos. Além disso, a TC permite a melhor visualização dos linfonodos. A ressonância magnética (RNM) é uma boa opção para avaliar parênquima, sem a exposição à radiação. No entanto, a colangiografia, tanto percutânea quanto endoscópica, é ainda o melhor procedimento para acessar a ressecabilidade do tumor.

O tratamento recomendado é a cirurgia. Os estadios 0 e I podem ser tratados com colecistectomia laparoscópica, enquanto os tipos II, III, e IV são indicação de colecistectomia radical, com ressecção de tecido hepático adjacente e linfonodos regionais. As recomendações fortes para colecistectomia incluem: suspeita ou risco de malignidade (cálculos associados com pólipo ? 1 cm, vesícula escleroatrófica, cálculo ? 3 cm de diâmetro); colelitíase assintomática em pacientes com coledocolitíase; doença hemolítica crônica; e candidatos a transplante de órgãos. O colangiocarcinoma intra-hepático é tratado com ressecção hepática somente, e tumores extra-hepáticos ou da ampola de Vater são indicativos de pancreatodoudenectomia.

 

A sobrevida global para o câncer de vesícula é baixa em razão da invasão local, da disseminação peritoneal, e da extensa infiltração linfática precoce. A sobrevida é proporcional à espessura do tumor, presença de comprometimento de linfonodos (estádio TNM), e cirurgia sem margens comprometidas. Após a ressecção curativa, a sobrevida tem variado de 60% a 80% em cinco anos para os tumores T2, e de 15% a 50% em cinco anos para os tumores T3.

 

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