Caso Clínico de Desenvolvimento Médico - Hanseníase

há 1 ano     -     
Caso Clínico de Desenvolvimento Médico - Hanseníase

ANAMNESE:

ID: Paciente feminina, 60 anos, parda, residente no Rio de Janeiro/RJ

QP: Surgimento de lesão assintomática em região malar direita, com aproximadamente 18 meses de evolução.
A paciente desconhecia qualquer contato com familiares ou pessoas portadoras de hanseníase. Reside em uma região de média endemicidade, numa casa com 5 pessoas (3 filhos e 2 netas) e 4 cômodos.
 

EXAME FÍSICO:
Ao exame físico, apresentava placa de, aproximadamente, 1cm de diâmetro com bordos eritematosos elevados, pápula hipercrômica na borda inferior, centro levemente deprimido e halo hipocrômico bem delimitado. A lesão mostrou-se anestésica ao teste de sensibilidade térmica feito com algodão e éter, e a paciente não apresentava cicatriz de BCG. Notava-se ainda pápulas enegrecidas distribuídas em face e pescoço, clinicamente representando Dermatose Papulosa Nigra (DPN) (Fig. 1 e 2).


Figura 1 e 2. Placa de, aproximadamente, 1cm de diâmetro com bordos eritematosos elevados, pápula hipercrômica na borda inferior, centro levemente deprimido e halo hipocrômico bem delimitado.
 
 

HIPÓTESES DIAGNÓSTICAS: Hanseníase tuberculoide, sarcoidose, reação persistente à picada de inseto, infecção secundária por escoriação de DPN prévia e granuloma anular.

DIAGNÓSTICO CLÍNICO: A partir de uma lesão granulomatosa na face com halo hipocrômico e anestesia térmica, foi possível estabelecer o diagnóstico clínico de Hanseníase Tuberculoide, sendo iniciada poliquimioterapia paucibacilar (PQT/PB).
 
A paciente foi, então, submetida à realização de baciloscopia do raspado intradérmico dos lóbulos auriculares, cotovelos e joelhos e biópsia da lesão obtida por punch número 4.
 
A baciloscopia mostrou-se negativa e a biópsia evidenciou infiltrado inflamatório granulomatoso compatível com hanseníase tuberculoide (Fig. 3 e 4).


Figura 3. Vários granulomas tuberculoides (áreas com ponto preto) são vistos na derme
 (HE 40x).
 

Figura 4. Histiócitos formando granuloma circundados por inúmeros linfócitos (HE 400x)

 

DISCUSSÃO
 
A hanseníase tuberculoide caracteriza a forma clínica de contenção da multiplicação bacilar, dentro do espectro da hanseníase. As lesões cutâneas, com bordas pronunciadas, são únicas ou em pequeno número e, assimetricamente, distribuídas pelo tegumento. Apresenta-se, quando placa, como lesão eritematosa ou acobreada, difusamente infiltrada, ou com tendência central ao aplainamento, e limites externos sempre nítidos e bem definidos. Pode causar lesões nervosas sensitivas, como a anestesia térmica apresentada no caso relatado, e lesões nervosas autonômicas (ex: alterações da pigmentação cutânea, lesão das glândulas sebáceas e sudoríparas com surgimento de lesões hipocrômicas, hipo-hidróticas/anidróticas e com redução ou ausência de pelos).
 
A baciloscopia do raspado intradérmico é sempre negativa, mas na coloração da histopatologia podem ser encontrados raros bacilos.
 
Dentre os diagnósticos diferenciais, considera-se sarcoidose, dermatofitose, reação persistente à picada de inseto, sífilis, psoríase e granuloma anular.
 
 A lesão permitiria vários diagnósticos diferenciais se não fosse pelo fato de apresentar halo hipocrômico com anestesia térmica. Esta característica evidencia a importância de se atentar para as alterações neurais provocadas pela hanseníase, tornando-se possível estabelecer o diagnóstico clínico, iniciar precocemente o tratamento específico e interromper a cadeia de transmissão da doença.
 

 

 

Caso originado do seguinte relato clínico:

Unterstell N, Machado PV, Obadia DL, Alves MFGS, Daxbacher ELR. Relato de caso de hanseníase tuberculoide: discussão dos achados clínicos e semióticos. Revista Hospital Universitário Pedro Ernesto. 2011;10(1):24-28
 

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