Caso Clínico de Neurologia - Alzheimer

há 1 ano     -     
Caso Clínico de Neurologia - Alzheimer

LANEURO – Liga Acadêmica de Neurociências

Autora: Emília Isabel da Silva

Orientador: Marcelo Viana Rodrigues da Cunha, Graduado em Medicina pela Faculdade Souza Marques (2002), especialização em Clinical Fellowship – Neurotrauma (2011) e especialização em Clinical Fellowship – Spine (2012) ambos pela University of Toronto. Residência Médica pelo Hospital da Baleia (2006). Atualmente é Neurocirurgião do Biocor Instituto, Neurocirurgião do Hospital Belo Horizonte, Neurocirurgião do Hospital da Unimed e Neurocirurgião do Hospital Madre Teresa. Professor adjunto da Faculdade de Medicina da PUC Minas da disciplina de Semiologia Neurológica.

Instituição: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG)

 

Neurologia

 

História Clínica

JIN,79 anos, sexo masculino, branco, casado, aposentado, ensino fundamental incompleto, natural de Antônio Dias e procedente de Ipatinga, compareceu à consulta de rotina, acompanhado da esposas, queixando de esquecimento. Relata que iniciou a notar o sintoma referido há aproximadamente um ano. No início, os familiares perceberam dificuldade para lembrar nomes, recados e que estava contando os mesmos casos e fazendo as mesmas perguntas várias vezes. Entretanto, o paciente não percebia o esquecimento. Nega outras alterações cognitivas, como alteração na fala e percepção. Nega alterações comportamentais e de humor. Incapacidade em executar as atividades de vida diária como fazer compras, usar o telefone, tomar remédio, recebendo o auxílio da esposa para isso. Faz uso de sinvastatina, doxazosina, losartan, furosemida, omeprazol e furosemida.

Possui como comorbidade DM tipo 2, HAS, hipercolesterolemia e DRC estágio IV. Passado de hérnia de hiato esofágico, gastrite e de câncer prostático, descoberto em fase inicial e tratado com quimioterapia. Nega antecedentes familiares de doença neurodegenerativa. Nega tabagismo. Nega etilismo. Realiza caminhada diária acompanhado da esposa.

Exame Físico

Pressão Arterial: 130/70 mmHg

Aparelho Cardiovascular: Bulhas Normorítmicas e Normofonéticas em 2 tempos, sem sopros, clicks ou estalidos.

Aparelho Respiratório: Murmúrio Vesicular predominante no tórax, bilateral, sem ruídos adventícios. Percussão sem alterações. Indolor à palpação. Ausência de frêmitos

Mini-exame do estado mental (MEEM): revelou alterações em orientação, memória de evocação, atenção e cálculo, comando e cópia de pentágonos (14/30 pontos). A avaliação funcional para atividades de vida diária (AVD) revelou um comprometimento

Teste do relógio: não conseguiu reproduzir o desenho

Exames complementares

Hemograma, glicemia de jejum, eletrólitos, uréia e creatinina, albumina, dosagem sérica de vitamina B12 e ácido fólico e TC de crânio.

Exames laboratoriais sem alterações e TC revelou leve hipotrofia hipocampal.

Discussão

A prevalência de queixas de memória em idosos na comunidade é alta, com variação de 22% a 56%, correspondendo às alterações cognitivas mais evidentes nesta população. Dentre os principais tipos de memória, as mais afetadas no envelhecimento não patológico são a memória de trabalho e a memória episódica. Esta última diz respeito a informações recentes associadas ao cotidiano, e o seu comprometimento é o principal responsável pela queixa de esquecimento nos idosos.

A doença de Alzheimer (DA) é a causa mais frequente de demência em todo o mundo, impactando diretamente na vida de familiares, principalmente pelo aumento da carga de cuidados. É uma doença neurológica, que se caracteriza por quadro demencial progressivo com comprometimento inicial da memória para fatos recentes. Posteriormente, há deterioração das funções cognitivas, como apraxias construtivas, agnosias e distúrbios afásicos. 

Uma breve investigação da função cerebral deve fazer parte da avaliação dos idosos; não leva mais que poucos minutos, devendo ser incorporada ao exame médico. A anamnese do paciente que chega ao consultório com queixas de alterações cognitivas deve incluir a busca de evidências de mudanças no aspecto cognitivo nos últimos anos e sinais de que essas possíveis deficiências possam estar associadas a perdas funcionais. Muitas vezes, a atenta observação do relato do paciente, verificando sua capacidade de fornecer uma história coerente, com sequência apropriada, sem muitas dificuldades para encontrar as palavras necessárias, já pode render informações valiosas. A confirmação dos sintomas por um cuidador, parente, amigo ou outra pessoa que tenha contato regular com o paciente é fundamental, pois ajuda a determinar o quanto o indivíduo mudou em relação às suas próprias capacidades, sendo útil em especial, nas situações onde o déficit é muito leve ou questionável.

O Paciente com DA pode ser submetido a vários tipos de testes de áreas específicas para identificar comprometimentos focais. Por exemplo, a utilização do Mini-Mental, do Teste do Desenho do Relógio e a utilização da Escala de Classificação de Demências é amplamente feita, tendo em vista que cada teste avalia uma área e auxilia no direcionamento das áreas mais afetadas. Porém, estes testes são mais úteis para avaliações iniciais. Quando surgirem dúvidas a cerca do caso uma avaliação mais detalhada precisa ser feita.

O Miniexame do Estado Mental (MEEM) é um exame em que os aspectos de Orientação, Registro, Atenção e Cálculo, Evocação e Linguagem são avaliados por meio de 11 perguntas ou comandos. O teste consiste em um total de 30 pontos, o valor de 27 ou mais pontos indica que o indivíduo está normal, e o de 24 ou menos indica demência, exceto se a pessoa possui menos de 4 anos de escolaridade, nesse caso o valor passa a ser 17. Com a Doença de Alzheimer, espera-se que a pontuação do paciente reduza entre 2 e 3,5 pontos por ano.

O Teste do Relógio consiste em pedir ao paciente que desenhe um relógio com os números marcando um horário determinado, geralmente esse horário é 8:40, pois há um ponteiro em cada lado do relógio, de modo que os dois hemisférios são avaliados, mas os horários variam de acordo com o autor. Esse exame avalia a capacidade funcional do indivíduo, de modos que o MEEM algumas vezes não consegue avaliar, além disso ele é muito utilizado por ser um teste simples e de fácil aplicação. A pontuação do teste vai de 0 a 10, e é avaliada a integridade do mostrador do relógio, os números e os ponteiros. Entre 9 e 10 pontos, o indivíduo é considerado normal, entre 7 e 8 deve-se suspeitar de alguma anormalidade, e menor do que 7 é considerado anormal.

Exames complementares também podem ser utilizados para avaliação neurológica mais minuciosa. Hemograma, glicemia, perfil lipídico, vitamina B12, Função tireóidea, sorologia para sífilis e exames de neuroimagem são componentes de um roteiro básico para esse tipo de avaliação. A Tomografia Computadorizada (TC) pode ser utilizada para avaliar atrofias cerebrais, porém acaba deixando muita dúvida entre os efeitos do declínio cognitivo em si e as alterações fisiológicas do envelhecimento. A Ressonância Magnética Nuclear (RMN) pode mostrar alterações cerebrais com diminuição de algumas áreas que podem ser fatores predisponentes para conversão em Doença de Alzheimer. Estudos também têm sido feitos com biomarcadores como a proteína tau e o peptídeo B-Amilóide, para tentar correlacioná-los com o surgimento de demências. A grande preocupação do CCL é a conversão para a Doença de Alzheimer.

A terapia medicamentosa geralmente é feita usando os inibidores de acetilcolinesterase donepezila, rivastigmina e galantamina, em diversas apresentações orais, para o tratamento da doença. Estes fármacos inibem a degradação da molécula de acetilcolina, o neurotransmissor associado à função de memória, bloqueando a enzima acetilcolinesterase. Atuariam contribuindo para a melhoria cognitiva e comportamental, de modo a estabilizar as manifestações da doença e retardar sua progressão. As evidências acumuladas apontam benefícios na demência leve à moderada. 

 

 

 

REFERÊNCIAS

ABDOLLAHPOUR, Ibrahim et al. Caregiver burden and its determinants among the family members of patients with dementia in Iran. International journal of preventive medicine, v. 3, n. 8, 2012.

BRASIL. Ministério da Saúde. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Cadernos de Atenção Básica número 19. 2006. 

CLEMENTE, R.; RIBEIRO-FILHO, S. (2008). Comprometimento Cognitivo Leve: Aspectos conceituais, abordagem clínica e diagnóstica. Revista do Hospital Universitário Pedro Ernesto, 7(1), 68-77.

COSTA, Roberta Dorneles Ferreira da et al . Aquisição de medicamentos para a Doença de Alzheimer no Brasil: uma análise no sistema federal de compras, 2008 a 2013. Ciênc. saúde coletiva,  Rio de Janeiro ,  v. 20, n. 12, p. 3827-3838,  2015 . 

FREITAS, Elizabete; PY, ligia; CANÇADO, Flávio; DOLL, Johannes; GORZONI, Milton. Tratado de Geriatria e Gerontologia. 2. Ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006

OLIVEIRA, Renata M. da S. O Teste do Relógio. Porto. Tese de Mestrado apresentada à Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto

WAJMAN, José Roberto et al. Correlation and adaptation among functional and cognitive instruments for staging and monitoring Alzheimer? s disease in advanced stages. Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo), v. 41, n. 1, p. 5-8, 2014.

 

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