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Caso Clínico de Neurologia - Neuroesquistossomose

há 1 ano     -     
Caso Clínico de Neurologia - Neuroesquistossomose

ID: JRBF, 50 anos, sexo masculino, pardo, solteiro, pedreiro, ensino fundamental incompleto, natural e procedente da Ilha de Vera Cruz

QP: Cãibra em membros inferiores há 6 meses

HMA: Paciente previamente hígido refere que, há 1 meses, apresentou quadro de cãibras, edema e dor em membros inferiores com início distal evoluindo para proximal e acometimento inicial do membro direito com posterior acometimento do membro esquerdo. Há 2 semanas houve progressão do quadro com fraqueza em membros inferiores e dificuldade para deambular, além de retenção urinária e obstipação. Nega quadro semelhante prévio. Relata episódios de diarreia e dor epigástrica que se iniciaram no mesmo período.

IS: Perda de 4kg desde o início do quadro. Nega outros sintomas.

Antecedentes pessoais: Nega comorbidades.

Hábitos de vida: Tabagista, 15 maços-ano, abstêmio há 3 meses.

Antecedentes epidemiológicos: Refere ter morado em casa de taipa. Banho de rio com água parada há 2 meses.

Exame físico:

Paciente em bom estado geral, anictérico, eupneico, acianótico. PA: 130 x 80 mmHg; FC: 86 bpm; FR 16 ipm.

Neurológico: pacientes consciente e orientado. Ausência de alterações em nervos cranianos. Força muscular 5/5 em MMSS e 2/5 em MMII. Reflexos preservados e simétricos em MMSS, reflexo patelar +1 bilateralmente, reflexo aquileu +1 bilateralmente. Hipoestesia e hipoalgesia com nível sensitivo em T7-T8. Hipopalestesia e hipoestesia proprioceptiva em MMII.

Demais exame físico sem achados clínicos significativos.

Exames complementares:

Líquor: 6 hemácias; glicose 18,4; proteínas 495; LDH 147. Tinta da china, GRAM e pesquisa de BAAR negativos,

RNM de coluna torácica e lombar: focos esparsos de mielopatia nos segmentos dorsais médio e inferior de aspecto inespecífico na comluna torácica. Pequena hérnia extrusa paramediana/foraminal esquerda do disco L5-S1 com sinais de compressão sobre a raiz descendente esquerda. Edema na topografia de L3-L4 e L4-L5 de provável origem mecânica.

Parasitológico de fezes: ovos de Schistosoma mansoni

 

DISCUSSÃO

  1. Qual o diagnóstico provável para o caso?
  2. Qual importante diagnóstico diferencial?
  3. Qual o tratamento mais adequado para o paciente?

 

RESPOSTAS

  1. O pacientes apresenta diagnóstico provável de neuroesquistossomose. A neuroesquistossomose é um acometimento ectópico da esquistossomose mansônica, parasitose causada pelo Schistosoma mansoni que leva a importantes alterações vasculares no sistema gastrointestinal, principalmente no sistema porta. O envolvimento do sistema nervoso central (SNC) é causado pela presença de ovos ou de vermes adultos no parênquima cerebral, medular ou no espaço subaracnoide que alcançam essas áreas pelo desvio do sistema venoso abdominal decorrente da hipertensão portal causada pelo verme levando, principalmente, a formação de granulomas com compressão de estruturas adjacentes. O acometimento neurológico mais típico é o mielomenigorradicular, comum na fase hepatointestinal da doença, apresentando-se com paraparesia ou paraplegia progressiva, paraparestesia e hipoestesia principalmente em região celar, alterações esfincterianas vesical e retal e impotência sexual. O diagnóstico da neuroesquistossomose é difícil de ser feito pois não existe nenhuma manifestação clínica típica. O líquor nesses pacientes é pouco específico, já a ressonância magnética pode evidenciar presença de granulomas com efeito compressivo e lesões necróticas. O diagnóstico de neuroesquistossomose é considerado possível quando há acometimento medular torácico baixo ou lombar-sacral e epidemiologia positiva para esquistossomose; provável quando há exame parasitológico de fezes e/ou biópsia retal positivos associado ao diagnóstico provável; e comprovado com a confirmação histopatológica.
  2. Importante diagnóstico diferencial é a paraparesia espástica tropical causada pelo vírus linfotrófico HTLV-1, doença de alta prevalência no estado da Bahia, que causa tanto alterações liquóricas e clínicas semelhantes à neuroesquistossomose.
  3. O sucesso do tratamento depende diretamente do um diagnóstico precoce. O esquema de escolha é o uso de praziquantel, 40 a 60 mg/Kg, dose única, associado à corticoesteróides, com possível reversão total dos sintomas neurológicos. É importante a associação com Ivermectina para profilaxia de estrongiloidíase disseminada nos pacientes submetidos aos corticoesteroides.
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