Caso Clínico - Sífilis

há 1 ano     -     
Caso Clínico - Sífilis

História Clinica

PNS, 21 anos, masculino, pardo, solteiro, estudante universitário, natural e procedente de Salvador. Procurou Unidade de Pronto Atendimento após notar o aparecimento de uma lesão no pênis, próximo à glande a aproximadamente 15 dias. Segundo ele, a lesão teve início como um pequeno caroço (sic) na pele, que depois de 4 dias progrediu com características de uma úlcera com bordas endurecidas não dolorosa, negou a presença de qualquer outro sintoma.

O paciente afirma ter vida sexual ativa e relacionamento estável, mas revelou ter mantido relações sexuais desprotegidas com outra pessoa enquanto a parceira estava em uma viagem de intercambio. Busca o auxílio médico pois sua namorada está retornando de viagem e ele teme que ela descubra a traição.

 

Exame Físico

Paciente lúcido, orientado em tempo e espaço. Bom estado geral.

Sinais vitais

FC: 80 bpm; FR: 14 irpm; PA: 120 x 80 mmHg, Temperatura: 36,5 ºC.

 

Pele, fâneros e mucosas

Pele corada e mucosas coradas, unhas e pelos sem alterações. Apresenta lesão ulcerosa com características de cancro no pênis próximo à glande.

Cabeça e pescoço

Linfonodo submentoniano palpável sem características de malignidade. Sem mais alterações.

Sistema Nervoso

Nada digno de nota.

Sistema Respiratório

Tórax simétrico com expansibilidade preservada, frêmito toraco-vocal normal, som claro pulmonar à percussão, murmúrio vesicular preservado sem roncos ou sibilos.

Sistema Cardiovascular

Tórax simétrico sem abaulamentos, ictus cordis palpável no 5º EIC LMCE. Ritmo cardíaco regular. Pulsos simétricos de amplitude normal.

Aparelho Gastrointestinal

Abdome plano, sem lesões de pele, cicatrizes, circulação colateral ou herniações. Pulsações arteriais e peristalse não identificáveis à palpação. Peristalse normal, presente nos quatro quadrantes e ausência de sopros em focos arteriais abdominais à ausculta.

Hepatimetria medindo cerca de 10 cm (lobo direito) e 6 cm (lobo esquerdo). Traube livre. Abdome timpânico. Sem visceromegalias e sinais de irritação peritoneal.

Membros

Não apresenta alterações.

 

Exames Complementares

Exame de Campo Escuro positivo

 (Presença de várias espiroquetas em esfregaço da base de um cancro)

 

Pontos de discussão

 

  • Pela história da moléstia atual, exames físicos e exames complementares qual a suspeita de diagnóstico?
  • Quais são os tipos mais comuns de apresentação desta doença?
  • Quais os diagnósticos diferenciais mais comuns?
  • Qual o tratamento indicado para este paciente?

 

Discussão

 

A sífilis é uma doença crônica infecciosa causada pela bactéria Treponema pallidum, geralmente adquirida a partir do contato com outro individuo infectado. Trata-se de uma doença notável pela grande variedade de apresentações clinicas que pode manifestar no paciente, e quando não tratada pode progredir em três estágios: primário, secundário e terciário, sendo os dois primeiros também chamados de estágios precoces, infectantes. Normalmente ocorre cura espontânea seguida por um grande período de latência, podendo ocorrer anos após a infecção, em alguns pacientes, o surgimento de formas tardias com acometimento do coração, SNC e outros órgãos.

O período de incubação a partir do momento da infecção até o aparecimento da lesão primaria dura em média 21 dias, inicialmente ocorre o aparecimento de uma pápula indolor no local de infecção, que rapidamente se rompe para formar uma ulcera de base limpa e bordas endurecidas, o cancro. Este persiste por duas a seis semanas até desaparecer espontaneamente podendo ou não deixar a presença deum sinal. Decorridas algumas semanas tem início o segundo estágio, normalmente caracterizado por febre baixa, cefaleia, mal estar, linfadenopatia generalizada e erupções mucocutâneas que também se resolvem espontaneamente após um período médio de duas a seis semanas e então torna-se latente. Os estágios precoces podem ocorrer simultaneamente, podendo também ocorrer o envolvimento de órgãos viscerais. Com o advento da antibiótico terapia os casos de complicação tardia da sífilis não tratada são atualmente desconhecidos, mas estima-se que sejam menos frequentes que antigamente.  Deve-se dar atenção especial a pacientes sabidamente HIV positivos e a casos de sífilis congênita, resultado da disseminação hematogênica transplacentária.

O diagnóstico pode ser realizado por meio do Exame de Campo Escuro, onde é possível encontrar espiroquetas de morfologia e motilidade características em lesões de sífilis adquirida precoce ou congênita, podem ocorrer resultados falso-negativos, portanto um único resultado negativo é insuficiente para excluir o diagnóstico de sífilis. Existem também dois tipos básicos de testes sorológicos amplamente utilizados para detecção da infecção por T. pallidum: os testes não treponêmicos que detectam anticorpos contra os difosfatidilglicerol que é um componente normal de muitos tecidos, e os testes treponêmicos, que detectam anticorpos contra antígenos específicos do treponema.

Os diagnósticos diferenciais podem ser:

  • Para a ulcera genital – herpes genitais, cancroide, linfogranuloma venéreo e uma série de outros processos ulcerativos.
  • Para lesões cutâneas da sífilis secundária – pitiríase rósea, farmacordermia, exantemas febris agudos, psoríase, líquen plano, escabiose, além de outras doenças.

Para o tratamento do T. pallidum deve ser utilizada penicilina G, e a duração do tratamento bem como a dose do fármaco depende do estágio da doença e do tempo de infecção.

Referência

Goldman, L.; Schafer, A.; Cecil Medicina. 24ª Edição. Rio de Janeiro: ELSEVIER, 2014. Volume 2.

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