DPOC e Desnutrição

há 1 ano     -     
DPOC e Desnutrição

TRDS, 76 anos, masculino, natural e procedente de Salvador/BA, casado, aposentado, encontra-se na enfermaria, admitido no dia 27/04/2017. Relata piora do padrão de dispnéia basal, após tosse não produtiva, evoluindo para dispnéia de repouso. Fez uso de amoxacilina + clavulanato de potássio. Refere que a última exacerbação foi a 3 anos. Paciente tem diagnóstico de hipertensão e DPOC há 15 anos. Tabagismo há 37 anos, abstêmio 20 anos (3 maços por dia). Etilismo (cerveja e vinho), abstêmio há 3 anos. Possui hemiparesia a direita devido a uma AVE que ocorreu há 3 anos atrás.

LOTE, dispnéia grau 4, FC:100 bpm, segue em ventilação espontânea ao Ar ambiente, sem suporte de O2, FR: 20 ipm, tórax simétricos e expansivos bilateralmente. MV audível com ruídos adventícios roncos. Sp02 98%.

Peso = 60 kg, estatura = 1,73 m

 

Escala de Barthel:

Alimentação: 0

Banho: 0

Vestuário: 5

Higiene pessoal: 0

Dejeções: 10

Micção: 10

Uso de vaso sanitário: 0

Transferência cadeira/cama: 10

Deambulação: 15

Escadas: 5

Total:55

 

A DPOC é uma enfermidade respiratória prevenível e tratável, que se caracteriza pela presença de obstrução crônica do fluxo aéreo, que não é totalmente reversível”. (GOLD, 2009). Embora sem cura, pode ser controlada por meio de diagnóstico adequado, uso constante de medicações e de vários aspectos de reabilitação pulmonar.

Nessa doença ocorre frequentemente a desnutrição do tipo marasmática,que constitui uma forma de adaptação à desnutrição crônica. Observa-se uma prevalência de desnutrição de 22% a 24% em pacientes ambulatoriais e entre 34% e 50% em pacientes hospitalizados com DPOC. Ela leva à diminuição do desempenho respiratório devido à depleção das proteínas musculares. Além disso, também aumenta a suscetibilidade a infecções pulmonares. (FERNANDES,  2006)
 

Essa desnutrição é fruto de um mecanismo multifatorial. Sendo os dois principais mecanismos envolvidos em sua gênese: a ingestão inadequada de alimentos e o gasto energético aumentado. (FERNANDES, 2006)

Sobre a escala de Barthel:

O Índice de Barthel pertence ao campo de avaliação das atividades da vida diária (AVDs) e mede a independência funcional no cuidado pessoal, mobilidade, locomoção e eliminações. Cada item é pontuado de acordo com o desempenho do paciente em realizar tarefas de forma independente, com alguma ajuda ou de forma dependente. A pontuação é formada atribuindo-se pontos em cada categoria, a depender do tempo e da assistência necessária a cada paciente. A pontuação varia de 0 a 100, em intervalos de cinco pontos, e as pontuações mais elevadas indicam maior independência.

Alimentação: relaciona-se ao ato de levar a comida do prato à boca, à capacidade de usar qualquer talher, bem como comer em tempo razoável. Idosos que requeriam auxílio foram classificados como "necessitando de ajuda", e aqueles que não conseguiam levar a comida do prato à boca foram definidos como "dependentes".

Banho: refere-se ao uso de chuveiro ou banheira e ao ato de se esfregar em qualquer   uma   dessas   situações.   Foram   classificados   como   "dependentes" todos os idosos que necessitavam de qualquer auxílio de outra pessoa nessa função.

Vestuário: considera-se o ato de pegar as roupas no armário, bem como o ato de se vestir. Como roupas, compreendem-se roupas íntimas, roupas externas, fechos e cintos. Calçar sapatos é excluído da avaliação. Idosos que precisavam de auxílio, mas que conseguiam realizar pelo menos a metade das tarefas em tempo  razoável recebiam a designação necessitando de  ajuda". Se não conseguiam cumprir essa condição, eram considerados "dependentes".

Higiene pessoal: relaciona-se à capacidade de lavar o rosto, as mãos, escovar os dentes e barbear-se sem necessitar de ajuda. Foram considerados "dependentes" os idosos que necessitavam de qualquer auxílio de outra pessoa em qualquer um dos casos.

Dejeções: refere-se à ausência de episódios de incontinência. Foram considerados "continentes" os idosos que, além de não apresentarem perda involuntária de fezes, conseguiam fazer uso de supositórios ou enemas sozinhos, se necessário. Quando necessitavam de ajuda ou aconteciam episódios ocasionais de incontinência fecal, a classificação era de "incontinência ocasional".

Micção: considera-se continente quem não apresenta episódios de perda involuntária de urina e é capaz de lidar sozinho com a sonda vesical. Foram classificados como "incontinente ocasional" os idosos que apresentavam episódios esporádicos ou que não conseguiam lidar sem ajuda com sondas e outros dispositivos.

Uso do vaso sanitário: avalia-se pela facilidade no uso do vaso sanitário para excreções, assim como para arrumar as próprias roupas e limpar-se. Idosos que precisavam de auxílio para manter o equilíbrio ou para se limpar receberam a designação "necessitando de ajuda". Dependentes eram aqueles que recebiam auxílio direto de outra pessoa ou que não desempenhavam a função, bem como os que utilizavam "papagaios" ou "comadres".

Transferência cadeira/cama: avalia-se pelo movimento necessário no deslocamento da cama para a cadeira e vice-versa. Foram classificados em "ajuda mínima" os idosos que requeriam supervisão ou apoio para efetuar a transferência. "Grande ajuda" era utilizada para designar os que conseguiam sentar-se, mas necessitavam de assistência total para a passagem. Dependentes eram os que não conseguiam sentar-se e incapazes de colaborar durante as transferências.

Deambulação: considera-se "independente" a pessoa capaz de caminhar sem  ajuda  por até  50  metros,  ainda que com  apoio de  bengala, muleta, prótese ou andador. Em "ajuda" são classificados aqueles que podem caminhar até 50 metros, mas necessitam de ajuda ou supervisão.

Escadas: diz respeito à capacidade de subir ou descer escadas sem ajuda ou supervisão,   ainda  que  haja necessidade de dispositivo como muleta ou bengala, ou apoio no corrimão. "Ajuda" refere-se à necessidade de ajuda física ou de supervisão, ao descer e subir escadas.

 

Como o foco desta discussão é o estado nutricional do paciente, o que podemos observar?

No quesito alimentação, o paciente apresenta total dependência (conforme o índice de Barthel) e isso se deve à DPOC que desencadeia fadiga, tosse, dispneia e hipersecreção. Associado, ainda, à presença de hemiparesia direita, que é uma sequela de um histórico de AVE. É possível pensar também, por ele ser idoso, na possibilidade de presença de problemas dentários.

O IMC do paciente é 60kg/(1,73m)² = 20,05 kg/m². Consoante, O Nutrition Screening Initiative, a American Academy of Family Physicians e a American Dietetic Association os pontos de corte para o IMC de pacientes com DPOC são: IMC entre 22 e 27 kg/m2 para eutrofia, IMC < 22 kg/m2 para desnutrição e IMC > 27 kg/m2 para obesidade.

Outro índice que se baseia no IMC também é o índice BODE, (B de body mass índex; O de obstruction; D de dyspnea e E de exercise). É um preditor de mortalidade da DPOC e possui como ponto de corte para o IMC de 21 kg/m2, valores abaixo deste estão associados com um risco aumentado de morte. Logo, o nosso paciente além de estar desnutrido, está em alto risco de mortalidade.

O paciente está internado por causa de uma exacerbação. A cada evento de exacerbação a função pulmonar é mais prejudicada e a maioria delas tem por etiologia de agentes infecciosos.  Ou seja, é um ciclo vicioso: a DPOC à desnutrição à queda da imunidade à aumento da suscetibilidade a infecções à exacerbação à agravamento do quadro de DPOC, com prejuízo da função pulmonar. Que vai tornar mais difícil o processo de alimentação, começando tudo de novo.

Tendo em vista o supracitado, é evidente a importância da terapia nutricional adequada na melhoria do quadro clínico dos pacientes dpocíticos. Pois o tratamento da desnutrição e ganho de peso corpóreo eleva os valores absolutos de linfócitos, melhora a evolução do quadro, a função muscular respiratória a tolerância ao exercício e promove qualidade de vida ao paciente.

 

                  

Referências:

  1.                              McDowell   I, Newell   C.   Measuring   health:   a   guide   to   rating   scales   and questionnaires. 2nd ed. New York: Oxford University Press; 1996
  2. FERNANDES, Amanda Carla; BEZERRA, Olívia Maria de Paula Alves. Terapia nutricional na doença pulmonar obstrutiva crônica e suas complicações nutricionais. J. bras. pneumol.,  São Paulo ,  v. 32, n. 5, p. 461-471,Oct.  2006.

 

 

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