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Medicina de Emergência no Brasil – Uma área promissora? | Colunistas

há 3 meses     -     
Medicina de Emergência no Brasil – Uma área promissora? | Colunistas

“Por que fazer residência em Medicina de Emergência se posso trabalhar no mesmos locais que um recém-formado?”, “Você vai viver de plantão para o resto da vida?”, “Já está preparado para trabalhar muito e ganhar pouco?” Essas são algumas das perguntas mais ouvidas por residentes e especialistas em Medicina de Emergência. Neste texto, buscaremos responder algumas dessas questões.

A ideia de que é aceitável que médicos sem experiência sejam responsáveis pelo atendimento de alguns dos pacientes mais graves que podemos encontrar é preocupante. Em um dia comum, o médico que trabalha em Emergência encontra pessoas que estão vivendo o pior dia de suas vidas. E isso não pode ser negligenciado. Foi baseado nesse preceito que, após 20 anos de luta, nosso país teve uma grande conquista.

Reconhecida como especialidade no Brasil em 2015, a Medicina de Emergência vem crescendo rapidamente. Atualmente, já temos programas de residência na área em pelo menos 10 estados, com perspectiva de crescimento rápido desse número.

Os programas de residência em Medicina de Emergência no Brasil atualmente têm três anos de duração e abordam uma vasta gama de temas, treinando o residente para atender pacientes críticos em ambiente intra e pré-hospitalar, vítimas de trauma ou não, sejam eles crianças, gestantes, idosos ou adultos jovens, portadores de patologias agudas ou crônicas agudizadas. Desenvolvem-se ainda habilidades de ensino, gestão e pesquisa e realização de procedimentos invasivos (com atenção especial ao manejo de via aérea e uso de ultrassonografia point of care).

O Médico Emergencista não é apenas um médico que trabalha na Emergência. Ele é um especialista no assunto. Ao escolher essa especialidade, seu foco não é “poder dar plantão em Emergência”, mas sim, desenvolver ao máximo suas habilidades e prestar o melhor atendimento possível aos seus pacientes, baseado em evidências científicas e repetição de práticas à exaustão.  Assertividade, segurança, tranquilidade, conhecimento e foco são apenas algumas das características indispensáveis para se fazer um bom trabalho na área.

Para facilitar a avaliação de como a especialidade deve se desenvolver a médio e longo prazo (e contrariar a ideia de que o Médico Emergencista trabalha muito e não é bem pago), podemos tomar como exemplo um país que já chegou lá. No dia 10 de abril de 2019 foi publicado o Medscape Physician Compensation Report 2019, que avalia os salários médios e nível de satisfação de 30 especialidades médicas. Esse ano, a Medicina de Emergência ficou em 13º lugar em remuneração (média de 353 mil dólares anuais) e em 2º lugar (68%) em grau de satisfação (sentir-se recompensado de maneira justa, não necessariamente relacionada ao salário). Foi visto ainda que 83% dos Emergencistas entrevistados escolheriam novamente a Medicina de Emergência como especialidade.

No Brasil, onde a Medicina de Emergência engatinha e muitas pessoas sequer sabem da sua existência, ainda não é regra um pagamento diferenciado para especialistas e não-especialistas. Porém, nos locais onde há Emergencistas formados temos exemplos de diversos hospitais que preferem um especialista, concursos onde ser Médico Emergencista é um diferencial e até hospitais onde todos os plantonistas do setor de emergência são Médicos Emergencistas.

Outro ponto comum é indagar se o Emergencista estará disposto a trabalhar em ritmos frenéticos de plantão (atualmente realidade para muitos médicos no país) ao longo da sua vida. Em países onde a especialidade já é bem estabelecida, temos como regra plantões com 6 a 8 horas de duração e cargas horárias semanais muito menores que as praticadas no Brasil, com uma remuneração equivalente ou superior às que vivenciamos aqui.
Além disso, duas áreas às quais os Emergencistas adequam-se muito bem são a gestão e o ensino.

A primeira pois na sua formação além de estudar abordagens específicas sobre o tema, o residente participa dos mais variados níveis de atenção às emergências, dando uma visão ampla e diferenciada que o permite criar e coordenar serviços com maestria.

Já em relação ao ensino, é evidente a deficiência de formação na área durante a graduação, visto que os alunos e professores estão habituados com um método de abordagem muito diferente do praticado pelo Emergencista. A abordagem clássica é voltada para o diagnóstico, com a pergunta base sendo “o que o meu paciente tem?”, já a abordagem realizada pela Medicina de Emergência, exaustivamente repetida durante a residência se baseia em um preceito diferente, buscando responder à pergunta “o que o meu paciente precisa agora?”.

Alguns tentam comparar os dois métodos, tentando definir qual é o melhor. A meu ver, são incomparáveis, visto que se aplicam a situações completamente distintas. Cada um tem o momento melhor para ser usado. Tentar investigar um paciente quando ele precisa de uma intervenção imediata pode ser fatal. Já durante o processo investigativo, ser muito objetivo e ignorar certos “detalhes” que podem parecer sem importância à primeira vista, pode levar o médico a tomar decisões e condutas precipitadas. Entender isso é possível através de anos de experiência (muitas vezes trazendo consequências ruins para os pacientes) ou tendo uma formação que treine e oriente o momento certo de agir e como deve ser essa ação. A residência em Medicina de Emergência proporciona isso.

É fácil para os gestores perceber por que é vantajoso ter um Médico Emergencista em seu hospital. Solicitam uma quantidade menor de exames, realizam diversos procedimentos, pacientes permanecem menos tempo no departamento de emergência, resultando em menores custos para o serviço e maiores níveis de satisfação dos pacientes.

A Medicina de Emergência ainda tem muito para crescer no país. E o Brasil só tem a ganhar.

Eugênio Franco | Médico Emergencista
Preceptor das Residências em Medicina de Emergência da Escola de Saúde Pública do Ceará e do Instituto Dr. José Frota

Autor do perfil no Instagram @dosesdeemergencia e canal no youtube doses de emergência.

Email para contato:
eugeniofranco@emergencistas.med.br
 
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