QUEIMADURA ELÉTRICA

há 1 ano     -     
QUEIMADURA ELÉTRICA

C.R.S, masculino, 11 anos, natural de Juiz de Fora

Foi atendido no dia 04 de fevereiro de 2017 pela Unidade de Suporte Avançado (USA) do SAMU de Juiz de Fora devido a queimadura elétrica. Relata que estava brincando de soltar papagaio com seus amigos quando este agarrou em fio elétrico de alta tensão e ao tentarem retirar com uma barra metálica, foram eletrocutados.

A mãe da criança a retirou do local e a levou para UPA, onde recebeu os primeiros socorros. A USA foi acionada para fazer a transferência para outra unidade hospitalar. A criança se queixava de uma intensa dor em MMII e relatava uma sedenta vontade de fazer ingesta de água.

Sinais vitais:

Tax: 36C

FC = 95 bpm

FR = 22 ipm

SatO2 = 97%

Hgt = 86

Ausculta respiratória sem alterações, presença de MV

FP=FC BNF2TSS

RHA + Ausência de dor à palpação abdominal superficial e profunda, ausência de visceromegalias

MMSS: presença de queimaduras na face ventral da mão direita

MMII: Presença de queimadura de 3 grau em face dorsolateral do pé direito

 

Discussão do Caso: Queimadura elétrica

As queimaduras são lesões decorrentes de agentes (tais como a energia térmica, química ou elétrica) capazes de produzir calor excessivo que danifica os tecidos corporais e acarreta a morte celular. Tais agravos podem ser classificados como queimaduras de primeiro grau, de segundo grau ou de terceiro grau.

O cálculo da extensão do agravo é classificado de acordo com a idade. Nestes casos, normalmente utiliza-se a regra dos nove, que leva em conta a extensão atingida, a chamada superfície corporal queimada (SCQ). Para superfícies corporais de pouca extensão ou que atinjam apenas partes dos segmentos corporais, utiliza-se para o cálculo da área queimada o tamanho da palma da mão (incluindo os dedos) do paciente, o que é tido como o equivalente a 1% da SCQ.

TRATAMENTO DE EMERGÊNCIA DAS QUEIMADURAS

1) Tratamento imediato de emergência:

·         Interrompa o processo de queimadura.

·         Remova roupas, joias, anéis, piercings e próteses.

·         Cubra as lesões com tecido limpo.

 

2) Tratamento na sala de emergência:  

Vias aéreas (avaliação):

·         Avalie a presença de corpos estranhos, verifique e retire qualquer tipo de obstrução.

Respiração:

·         Aspire as vias aéreas superiores, se necessário.

·         Administre oxigênio a 100% (máscara umidificada) e, na suspeita de intoxicação por monóxido de carbono, mantenha a oxigenação por três horas.

·         Suspeita de lesão inalatória: queimadura em ambiente fechado com acometimento da face, presença de rouquidão, estridor, escarro carbonáceo, dispneia, queimadura das vibrissas, insuficiência respiratória.

·         Mantenha a cabeceira elevada (30°).

·         Indique intubação orotraqueal quando:

ü  A escala de coma Glasgow for menor do que 8;

ü  PaO2 for menor do que 60;

ü  PaCO2 for maior do que 55 na gasometria;

ü  Dessaturação for menor do que 90 na oximetria;

ü  Houver edema importante de face e orofaringe.

c) Avalie se há queimaduras circulares no tórax, nos membros superiores e inferiores e verifique a perfusão distal e o aspecto circulatório (oximetria de pulso).

d) Avalie traumas associados, doenças prévias ou outras incapacidades e adote providências imediatas.

e) Exponha a área queimada.

f) Acesso venoso:

        Obtenha preferencialmente acesso venoso periférico e calibroso, mesmo em área queimada, e somente na impossibilidade desta utilize acesso venoso central.

g) Instale sonda vesical de demora para o controle da diurese nas queimaduras em área corporal superior a 20% em adultos e 10% em crianças.

3. Profundidade da queimadura:

a. Primeiro grau (espessura superficial) – eritema solar:

        Afeta somente a epiderme, sem formar bolhas.

        Apresenta vermelhidão, dor, edema e descama em 4 a 6 dias.

b. Segundo grau (espessura parcial-superficial e profunda):

        Afeta a epiderme e parte da derme, forma bolhas ou flictenas.

        Superficial: a base da bolha é rósea, úmida e dolorosa.

        Profunda: a base da bolha é branca, seca, indolor e menos dolorosa (profunda).

        A restauração das lesões ocorre entre 7 e 21 dias.

c. Terceiro grau (espessura total):

        Afeta a epiderme, a derme e estruturas profundas.

        É indolor.

        Existe a presença de placa esbranquiçada ou enegrecida.

        Possui textura coreácea.

        Não reepiteliza e necessita de enxertia de pele (indicada também para o segundo grau profundo).

4) Extensão da queimadura (superfície corpórea queimada – SCQ):

        Regra dos nove (urgência)

        A superfície palmar do paciente (incluindo os dedos) representa cerca de 1% da SCQ.

        Áreas nobres/queimaduras especiais: Olhos, orelhas, face, pescoço, mão, pé, região inguinal, grandes articulações (ombro, axila, cotovelo, punho, articulação coxofemural, joelho e tornozelo) e órgãos genitais, bem como queimaduras profundas que atinjam estruturas profundas como ossos, músculos, nervos e/ou vasos desvitalizados.

5) Cálculo da hidratação: Fórmula de Parkland = 2 a 4ml x % SCQ x peso (kg):

        2 a 4ml/kg/% SCQ para crianças e adultos.

        Idosos, portadores de insuficiência renal e de insuficiência cardíaca congestiva (ICC) devem ter seu tratamento iniciado com 2 a 3ml/kg/%SCQ e necessitam de observação mais criteriosa quanto ao resultado da diurese.

        Use preferencialmente soluções cristaloides (ringer com lactato).

        Faça a infusão de 50% do volume calculado nas primeiras 8 horas e 50% nas 16 horas seguintes.

        Considere as horas a partir da hora da queimadura.

        Mantenha a diurese entre 0,5 a 1ml/kg/h.

        No trauma elétrico, mantenha a diurese em torno de 1,5ml/kg/hora ou até o clareamento da urina.

        Observe a glicemia nas crianças, nos diabéticos e sempre que necessário.

        Na fase de hidratação (nas 24h iniciais), evite o uso de coloide, diurético e drogas vasoativas.

6) Tratamento da dor: Instale acesso intravenoso e administre:

• Para adultos: Dipirona = de 500mg a 1 grama em injeção endovenosa (EV);

Morfina = 1ml (ou 10mg) diluído em 9ml de solução fisiológica (SF) a 0,9%, considerando-se que cada 1ml é igual a 1mg. Administre de 0,5 a 1mg para cada 10kg de peso.

• Para crianças: Dipirona = de 15 a 25mg/kg em EV;

Morfina = 10mg diluída em 9ml de SF a 0,9%, considerando-se que cada 1ml é igual a 1mg. Administre de 0,5 a 1mg para cada 10kg de peso.

7) Posicionamento: mantenha elevada a cabeceira da cama do paciente, pescoço em hiperextensão e membros superiores elevados e abduzidos, se houver lesão em pilares axilares.

·         Administre toxóide tetânico para profilaxia/ reforço antitétano.

·         Administre bloqueador receptor de H2 para profilaxia da úlcera de estresse.

·         Administre heparina subcutânea para profilaxia do tromboembolismo.

·         Administre sulfadiazina de prata a 1% como antimicrobiano tópico.

·         Restrinja o uso de antibiótico sistêmico profilático apenas às queimaduras potencialmente colonizadas e com sinais de infecção local ou sistêmica. Em outros casos, evite o uso.

·         Evite o uso indiscriminado de corticosteroides por qualquer via.

·         As queimaduras circunferenciais em tórax podem necessitar de escarotomia para melhorar a expansão da caixa torácica.

Trauma elétrico:

·         Identifique se o trauma foi por fonte de alta tensão, por corrente alternada ou contínua e se houve passagem de corrente elétrica com ponto de entrada e saída.

·         Avalie os traumas associados (queda de altura e outros traumas).

·         Avalie se ocorreu perda de consciência ou parada cardiorrespiratória (PCR) no momento do acidente.

·         Avalie a extensão da lesão e a passagem da corrente.

·         Faça a monitorização cardíaca contínua por 24h a 48h e faça a coleta de sangue para a dosagem de enzimas (CPK e CKMB).

·         Procure sempre internar o paciente que for vítima deste tipo de trauma.

·         Avalie eventual mioglobinúria e estimule o aumento da diurese com maior infusão de líquidos.

 

·         Na passagem de corrente pela região do punho (abertura do túnel do carpo), avalie o antebraço, o braço e os membros inferiores e verifique a necessidade de escarotomia com fasciotomia em tais segmentos.

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