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Sete sinais de que você pode ter escolhido medicina sem pensar direito

há 3 anos     -     
Sete sinais de que você pode ter escolhido medicina sem pensar direito

 

Medicina é uma área fascinante. O médico tem, a todo instante, a oportunidade de lidar com a vida, maior dádiva divina, e o faz atuando das mais diversas formas que se possa imaginar. O profissional pode escolher tratar apenas de crianças ou de idosos, apenas de mulheres ou de homens, pode operar ou clinicar, pode ser pesquisador e docente ou gestor, e pode fazer tudo isso, se assim o desejar. Seja ouvindo, examinando, medicando, operando ou investindo seu tempo e conhecimento em pesquisa, o médico está sempre disposto a promover a saúde e combater doenças e moléstias. Além disso, aquele profissional que não fugir do trabalho pode ser bem remunerado.

Por isso, os “doutores” gozam de certo prestígio na sociedade e a medicina se transformou no sonho de carreira de muitos jovens. Assim, fica fácil de entender porque a medicina é, há muito, a área mais concorrida para ingresso nas principais universidades em todo o país. No entanto, por mais apaixonante que seja a profissão, a medicina é muito exigente e também tem o seu lado negativo. Portanto, para se optar pela área é necessário exercitar a sua capacidade de planejamento e identificar os aspectos positivos e negativos da carreira, colocando-os na balança e buscando reconhecer se o seu perfil se encaixa e se esta é verdadeiramente a sua vocação.

Não é o que observamos na prática. Mais e mais jovens, a cada dia, se deixam levar de forma passiva ao longo desse processo. Muitos (talvez, a maioria) escolhem medicina sem o devido embasamento. O resultado é a desistência antes de completar a jornada ou profissionais frustrados, exercendo a atividade sem a menor satisfação. No começo deste ano (2015), durante uma palestra em um grande colégio da região, famoso pelo grande número de aprovados em medicina, fiz duas perguntas à platéia: Quantos aqui já definiram que vão escolher a medicina? Cerca de 70 pessoas ergueram as mãos para esse primeiro questionamento. E prossegui: Dos que definiram, quantos fizeram uma pesquisa minuciosa sobre a área antes de definir? Apenas duas pessoas responderam afirmativamente.

Assim, apresento algumas armadilhas que podem interferir na escolha consciente da carreira. O intuito é abrir os olhos para perigos nessa fase e estimular os jovens a adotarem uma postura mais ativa ao longo do processo de escolha.
 

  1.  Opção pela área realizada muito precocemente
 

Existem pessoas que sentem orgulho do fato de terem tomado, em tenra idade, uma decisão sobre a carreira. Como se a idade em que a decisão é tomada as transformasse em pessoas mais inteligentes, capazes e dignas do feito. Os familiares ajudam a alimentar a idéia: - “Fulano é muito esperto! Já decidiu que vai ser médico aos 10 anos!”. Digo por experiência própria, afirmações como esta não ajudam em nada e ainda geram a falsa impressão de que se está diante de uma decisão sólida.

Se você é vestibulando e está no momento da escolha, não se deixe levar por esse tipo de coisa. É muito fácil se colocar em uma posição mais confortável, sem menor pressão. Quando questionado agora, você pode afirmar: “Olha, eu costumava dizer isso aos 10 anos, mas agora sei que preciso pesquisar antes de tomar uma decisão definitiva.” Ou: “Eu realmente afirmava quando criança, mas quero saber se meu perfil se encaixa, antes de definir.”

Se você é pai, mãe ou parente, é melhor não estimular a tomada precoce de decisões tão importantes. Se quiser estimular algo, estimule a busca por conhecimento e a decisão no momento oportuno, após capacitação. Não incentive o seu filho ou parente a assumir um compromisso (ainda que moral) antes de ter maturidade suficiente para fazê-lo.

 
  1. Nunca parou para pensar bem, mas todos falam que você leva jeito
 

Acredite se quiser, isso acontece e muito. E sabe o que é pior? Muitos não percebem que estão sendo induzidos, justamente porque não adotaram uma postura ativa em relação à escolha da profissão. O vestibulando inconscientemente se deixa convencer por comentários diversos, porque não faz idéia de qual carreira seguir e porque, assim, o processo fica mais fácil. “Nossa, como você trata bem as pessoas! Tenho certeza que vai querer ser médico!” e “Toda vez que alguém na vizinhança se machuca, Fulano é o primeiro a ajudar. Vai ser um ótimo médico!” são exemplos de comentários feitos de maneira inocente, mas que acabam por interferir com a escolha. Assim como existem aqueles comentários que desanimam o jovem que sonha com a carreira médica: “Hum, Fulano não pode ver sangue que desmaia. Não vai ser médico nunca!”. Parece inofensivo, mas frases desse tipo podem fazer um estrago quando expressadas em ambientes de passividade. Se você não pesquisar e se informar, se não for ativo na escolha da carreira, vai se deixar contaminar por comentários levianos, infundados.

 
  1. É um ótimo aluno e os professores acham que esse seria o caminho correto a seguir
 

Ser um ótimo aluno não o habilita exclusivamente a concorrer a uma vaga para Medicina. Digo isso porque algumas pessoas acreditam que boas notasdevem ser usadas como principal critério para a definição de uma carreira.Se assim fosse, estudantes excepcionais seriam encontrados apenas no referido curso e isso está longe de ser verdadeiro. Nem boas notas o capacitam instantaneamente a carreira médica nem notas insatisfatórias devem impedi-lo de tentar ser médico.

Existem diversos outros pontos que devem ser analisados ao longo do seu planejamento: afinidade pela área, vontade de lidar com a vida humana e assumir responsabilidades, disposição para o estudo, ciência da longa jornada e da pesada carga de trabalho futura, possibilidade de trabalho em regime de plantões (possivelmente à noite e durante finais de semana), capacidade de se organizar e de se manter atualizado, paciência para aguardar o retorno financeiro, entre inúmeros outros que poderiam ser citados.

Assim, saiba reconhecer e diferenciar aqueles que te induzem a escolher a Medicina para aumentar o número de aprovações (na área mais concorrida), fortalecendo a marca que defendem, daqueles que buscam te aconselhar e guiar na procura pela carreira ideal para você. Esses estudantes com grande potencial de aprovação talvez representem a população com maior risco de serem induzidos e de se deixarem levar por opiniões alheias.

Lembre-se, se você não for ativo durante o processo e extremamente cuidadoso, suas habilidades o levarão a lugares que não combinam com o seu perfil. Quando se planta passividade, colhem-se arrependimentos e frustrações.

Leia também: Devo escolher Medicina? 11 vantagens e desvantagens.

 
  1. Seus pais são grandes entusiastas da área
 

Não abrace os sonhos dos seus pais como se fossem seus pelo simples fato de não desejar desapontá-los. A escolha da profissão é algo que requer maturidade. E uma grande característica das pessoas maduras é a habilidade em dizer não. Não estou aqui, com isso, posicionando-me contra ao filho que segue a profissão do pai. Acho até louvável que seja assim, desde que o filho compartilhe do mesmo amor que o pai tem pela profissão. Se você já conhece bem a profissão que pretende abraçar e tem grande amor por ela, assim como o seu pai, ótimo! O seu sucesso será um grande trunfo da família e uma excelente forma de preservar patrimônio.

Outro aspecto interessante, nesse contexto, é o do pai que não conseguiu realizar ou seguir determinada carreira, mas que quer a todo custo que o filho o faça. Senhores pais, se vocês realmente querem a felicidade dos seus filhos, saibam respeitar o espaço deles. Criem pessoas maduras, capacitem seus filhos a tomar decisões e deem o espaço que eles precisam para tomar a decisão sobre qual carreira seguir. É um direito deles!

 
  1. Acreditar que o vestibular é a única barreira a ser vencida
 

A faculdade de medicina dura 06 anos, com aulas nos períodos da manhã e da tarde, totalizando uma carga horária mínima de 7200 horas, sem contar o tempo que se leva estudando (geralmente durante a noite e nos finais de semana, por falta de tempo). Soma-se a isso, o grande volume de material para estudar, sendo que este material utiliza uma linguagem (jargões e termos científicos) até então desconhecidos para você.

Após a faculdade, se quiser fazer uma especialização, terá que realizar nova prova (talvez mais difícil do que o vestibular – por se tratar de concorrência altamente preparada). Sendo aprovado, o jovem médico terá, pelo menos, mais 3 anos pela frente. Sendo que algumas especialidades requerem 5 anos ou mais. Se optar por mestrado, ao final da residência, terá mais dois anos pela frente. Se optar pelo doutorado após isso, mais quatro. Fora isso, há o desafio de lidar com a vida, com contas e taxas, com a burocracia dos convênios e a ausência de recursos, entre outros.

E aí? Ainda acha que o vestibular é a única barreira ao longo da carreira médica? Tem razão, não é. É apenas a primeira.

 
  1. Escolha baseada apenas em status e no retorno financeiro
 

De acordo com dados de institutos governamentais de 2013, o salário médio do médico brasileiro ainda é um dos maiores quando se leva em conta a maioria das profissões regulamentadas no Brasil (média de R$6.900,00). No entanto, não se pode negar que houve uma mudança importante no cenário financeiro para o médico. E esta mudança ainda caminha para pior. Com a abertura desenfreada de escolas médicas, principalmente particulares, duas situações que tem impacto econômico considerável para o médico podem ser observadas. A primeira é que, com as elevadas mensalidades nessas instituições e a possibilidade de financiar o curso, muitos jovens médicos já saem da faculdade possuindo dívidas com valores exorbitantes, chegando aos seis dígitos. Além disso, o número de profissionais formados tem aumentado desproporcionalmente ao crescimento populacional (não observando critérios da OMS, que preconiza um médico para cada 1.000 pessoas). O resultado é redução da oferta de empregos, tanto quantitativa quanto qualitativamente.

Igualmente, a média salarial mencionada previamente se dá à custa de elevada carga horária semanal de trabalho. A pesquisa de 2013 também não levou em conta a longa jornada até a completa formação médica (sem dúvida, a maior dentre as profissões regulamentadas). Médicos demoram muito para se formar, o que implica em demora para obter algum retorno financeiro. Após o longo prazo, o retorno aparece insuficiente, em um cenário de dívidas e de poucas ofertas para o jovem médico. O profissional, então, pode se ver obrigado a aceitar quaisquer ofertas (geralmente as piores, envolvendo plantões noturnos e em finais de semana e, muitas vezes, em locais com más condições para o exercício da profissão). Se vê, ainda, tendo que assumir cargas pesadas de trabalho e abdicar de precioso tempo com a família e outras atividades.

Escolhas baseadas em critérios isolados são as com maior potencial de gerar frustração. Se você pensar deseja riqueza, com certeza a medicina não é o melhor caminho para isso.

 
  1. Não foi feito um planejamento detalhado de carreira
 

Por fim, se você chegou a uma decisão sobre qual será a sua futura carreira e não fez um planejamento adequado, existe uma grande chance de você ter adotado uma postura passiva ao longo do processo de escolha e de ter caído em uma das seis ciladas anteriores. Grosso modo, um bom planejamento de carreira pode ser dividido em 4 fases: pesquisa sobre a área, tomada de decisão, investimento para acesso na área escolhida e desenvolvimento da carreira em si (formação e atuação).

Ocasionalmente sou confrontado por algumas pessoas que tem a seguinte dúvida: “Mas, veja bem, fazer Medicina é o meu sonho! Isto não é suficiente?!” Peço desculpas se o desaponto, mas a resposta é não! É negativa, porque você pode estar sonhando com uma área que você não tem a menor noção do que é. Você pode estar assumindo um compromisso (para a vida inteira) sem saber quais são os termos, o nível de esforço e dificuldade envolvidos, a possibilidade de adaptação à área, previsões de ganhos e de satisfação com o que irá fazer.

Veja, conheço pessoas que me dizem sonhar, por exemplo, em conhecer Paris. Quando o sonho se torna possível e o momento de realizá-lo se aproxima, o que fazem essas pessoas? Um belo de um planejamento: leem tudo o que podem sobre a cidade, escolhem o melhor período para a viagem e a sua duração, procuram os hotéis com melhor custo-benefício, decidem sobre meio de transporte no local, preparam roteiros detalhados para todos os dias, separam a quantia que pretendem gastar, optam por uma companhia aérea e fazem as malas. Não é ótimo?! Mas uma viagem turística dura apenas alguns dias, talvez meses, na maioria das vezes.

A jornada para uma boa formação médica dura pelo menos uma década, podendo durar mais (a depender do quanto desejar investir na área). 10 anos! E você quer fazer isso sem planejamento? Você sonha com a Medicina? Parabéns! Mas não deixe o sonho em si ser o motivo da sua escolha. Alimente-o, lendo muito sobre a área.

Na primeira fase do planejamento, pesquise tudo o que puder sobre a área. Leia livros, converse com estudantes de Medicina e com profissionais capacitados, vá a palestras, veja filmes, frequente plantões e o meio acadêmico. Isso é muito importante para uma escolha guiada. Na segunda fase, converse com os seus familiares e divida as experiências obtidas. Seja humilde, escute o que seus pais têm a dizer. Mas na hora de definir, o faça só. Não deixe ninguém decidir por você. É um direito seu. Decisão tomada, é hora de seguir em frente. Você agora precisa investir seu tempo para vencer a barreira do vestibular/ENEM e tem mais alguns pontos a definir: qual curso preparatório frequentar? Como estudar em casa? Quais universidades serão tentadas? Importante: tenha foco, organização e disciplina. Saiba que esse será um ano de abdicações, mas que por um bom motivo. O mais importante: acredite em você e nos seus sonhos. Se você não acreditar, quem irá?
 
Se você deseja mais informações sobre medicina, não deixe de ler o meu próximo artigo sobre vantagens e desvantagens da área. Espero ter ajudado. Boa sorte!




João Bourbon II é formado pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde e Mestrando pela Universidade Federal de Sergipe. Além disso é autor do livro "Ser ou não ser médico? Os 15 segredos que você precisa conhecer sobre a carreira médica no Brasil." Para saber mais sobre o livro e ler trechos gratuitamente clique aqui. 



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