Sífilis na gestação

há 11 meses     -     
Sífilis na gestação

Caso Clínico

Identificação

MJS, 27 anos, melanoderma, solteira, doméstica, natural de Coração de Jesus, reside em Montes Claros-MG. Paciente atendida na maternidade do Hospital Universitário Clemente de Farias.

 

Queixa Principal

Caroço na vagina

 

História da Moléstia Atual

Paciente gestante

#G2 P1 A0 (parto normal há 2 anos)

#IG: 26+3 semanas pelo USG de 1° trimestre

#Somente 1 consulta de pré-natal, não trouxe exames.

Paciente informa que há 3 semanas notou aparecimento de um caroço na vagina, com as bordas avermelhadas e o centro mais fundo, é pequeno, cerca de 3 cm, indolor e presença de secreção. Afirma presença de movimentação fetal. Nega perdas vaginais. Nega alteração do hábito intestinal. Nega alterações urinárias.

 

História Pregressa

Paciente nega doenças crônicas, alergia medicamentosa e alimentar. Nega cirurgias prévias. Nega hemotransfusão. Nega etilismo e tabagismo durante a gestação.

 

História Familiar

Pais hígidos. Possui 1 filho hígido. Nega neoplasias, diabetes e qualquer outro tipo de doença de caráter hereditário na família.

 

História Gineco-obstétrica

Menarca aos 13 anos, ciclos menstruais regulares, de quantidade moderada, duração de 4 dias, com intervalo de 28 dias. Relata dismenorréria leve nos primeiros dias de sangramento e dores em membros inferiores. Sexarca aos 15 anos. Não possui parceiro fixo e que não utiliza métodos de barreira durante as relações. Parto normal há 2 anos sem intercorrências. Não soube informar quando foi o último exame de prevenção.

 

Exame Físico

Paciente bem orientada no tempo e no espaço, anictérica, hidratada e corada.

Dados vitais

      Pulso radial: 80 bpm.

      Frequência cardíaca: 78 bpm.

      Frequência respiratória: 16 irpm.

      Saturação de oxigênio: 100%.

      Pressão arterial: 120x60mmHg.

      Temperatura axilar: 36,5ºC.

       

Exame Ginecológico

BCF: 136 bpm

UF: 27 cm

DU: Negativa

EE: Sem alterações. Secreção vaginal fisiológica.

Toque: Colo grosso, posterior e fechado.

Pápula em pequeno lábio, ulcerada, arredondada, pequena, cerca de 3 cm, com fundo duro e bordas elevadas, de coloração avermelhada e secreção serosa, indolor a palpação.

 

Exames Complementares

      HBsAg: não reagente

      Anti-HCV: não reagente

      Anti-HIV: não reagente

      VDLR: 1/8

      FTA-Abs: reagente

 

HD: Sífilis primária na gestação

CD: Penicilina benzatina 2,4 milhões UI, IM, em dose única (1,2 milhão UI em cada glúteo).

Orientações.

 

Sífilis

 

            É uma infecção sistêmica causada pelo Treponema pallidum (espiroqueta gram negativa de transmissão sexual ou vertical). Possui evolução crônica com períodos de agudização, quando não tratada. 2,6% das gestantes brasileiras possuem sífilis. É doença de notificação compulsória.

            É classificada em sífilis adquirida (precoce: primária, secundária, latente recente e tardia: latente tardia, terciaria) e sífilis congênita (precoce e tardia).

            A sífilis primária caracteriza-se por uma pápula indolor que evolui para uma lesão ulcerada, denominada cancro. A lesão é indolor, embora sensível ao toque.

            Após a cicatrização, os fenômenos do secundarismo poderão ocorrer dentro de 4 a 8 semanas. Lesões (não ulceradas) disseminadas pelo corpo, mas principalmente na palma das mãos e planta dos pés. Aparecem como máculas ou pápulas. Alguns sintomas podem estar presentes durante essa fase, como, por exemplo, febre, mal-estar, faringite, anorexia, artralgia e linfadenopatia generalizada, além de dor articular, perda de peso e perda de cabelo.

            Na ausência de tratamento, os sintomas da sífilis secundária desaparecem e a doença atinge um estágio de infecção latente, no qual não há qualquer sintoma específico e os testes sorológicos para a doença permanecem positivos. Esse estágio pode durar poucos meses ou toda a vida.

            A sífilis terciária desenvolve-se entre 2 e 40 anos após a infecção inicial e caracteriza-se pelo comprometimento do aparelho cardiovascular e sistema nervoso central.

            Na gestação, a placenta e os anexos evidenciam o comprometimento desse processo infeccioso por meio de aumento de volume, edema, coloração mais pálida e friável dos cotilédones que formam a placenta. O concepto, uma vez infectado, poderá apresentar sífilis congênita precoce ou tardia.

A sífilis congênita precoce é aquela em que as manifestações ocorrem até o segundo ano de vida da criança. Ocorre Comprometimento cutâneo mucoso, “pênfigos” palmoplantares, provocando seguidamente uma grande área de descamação da epiderme, hepatoesplenomegalia, hiperbilirrubinemia, alterações ósseas. Já a sífilis tardia ocorre a partir do terceiro ano de vida da criança e caracteriza-se pelas alterações ósseas e articulares, surdez, alterações dentárias, lesões oculares, nariz em cela, perfuração do palato duro e comprometimento neurológico.

            Pode ocorrer ainda óbito fetal ou aborto devido ao não tratamento ou tratamento inadequado da mãe.

            O diagnóstico é confirmado por testes que são de dois tipos: (1) não treponêmicos, como o VLDR que é utilizado para rastreamento e monitoração da atividade da doença após o tratamento, visto que seus títulos correlacionam-se com a atividade da doença. Possui alta sensibilidade, mas baixa especificidade; e (2) treponêmicos: detectam a presença de anticorpos anti-Treponema pallidum. Portanto, não distinguem se é uma doença ativa ou cicatriz sorológica. Entre os treponêmicos podemos citar FTA-Abs e os testes imunocromatográficos (testes rápidos).

            No tratamento a penicilina é a droga de escolha, sendo uma medicação de baixo custo, fácil acesso, ótima eficácia e é a única droga que impede a transmissão vertical. É feito com base na fase de infecção da doença:

-          Sífilis primária: penicilina benzatina 2,4 milhões UI, IM, em dose única (1,2 milhão UI em cada glúteo).

-           Sífilis recente secundária e latente: penicilina benzatina 2,4 milhões UI, IM, repetida após uma semana. Dose total de 4,8 milhões UI.

-          Sífilis tardia (latente e terciária): penicilina benzatina 2,4 milhões UI, IM, semanal, por 3 semanas. Dose total de 7,2 milhões UI.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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