Transtorno Afetivo Bipolar

há 1 ano     -     
Transtorno Afetivo Bipolar

O que é o transtorno bipolar?

O transtorno bipolar (TBP) é uma condição psiquiátrica relativamente frequente, é uma doença crônica que afeta entre 1% e 2% da população e representa uma das principais causas de incapacitação no mundo. Nesse transtorno há a alternância entre depressão e mania. Cerca de 4% da população adulta mundial sofre de transtorno bipolar e, segundo a Associação Brasileira de Transtorno Bipolar (ABTB), essa prevalência vale também para o Brasil, o que representa 6 milhões de pessoas no país.

Quais são as principais causas?

Segundo os psiquiatras, há componentes genéticos e ambientais envolvidos na manifestação do transtorno bipolar. E a hereditariedade da doença pode chegar a 70% em parentes de primeiro grau (quando a mãe, o pai ou irmãos têm o distúrbio). As variações hormonais do ciclo menstrual e do pós-parto também podem interferir para desencadear crises nas mulheres, de acordo com os médicos. Mas não há diferenças de prevalência entre os sexos – o que existe é um maior diagnóstico entre o sexo feminino, possivelmente porque as mulheres cuidam mais da saúde que os homens. A detecção também é geralmente feita nos estados depressivos, pois os pacientes eufóricos tendem a achar que estão bem, felizes e não precisam de ajuda. Além disso, fatores ambientais experimentados na infância, como maus tratos, negligência por parte dos pais, abuso sexual e até uma vida desorganizada, sem horários certos para comer ou dormir, podem favorecer a bipolaridade ou novas crises, segundo os psiquiatras.

Existem fatores de risco?

Há alguns fatores podem contribuir para o desenvolvimento de transtorno bipolar. Entre eles estão o histórico familiar da doença; estresse intenso; uso e abuso de drogas recreativas e/ou álcool; mudanças de vida e experiências traumáticas e ter entre 15 e 25 anos, uma vez que homens e mulheres possuem as mesmas chances de desenvolver a doença.
Como, em geral, os portadores do transtorno têm rotinas desregradas e a doença é detectada tardiamente, muitas vezes também há problemas cardiovasculares envolvidos, como colesterol e triglicérides, diabetes tipo 2, abuso de álcool e drogas (de 40% a 60% dos casos) e até suicídios (de 5% e 15% do total). Em 30% a 70% dos casos de bipolaridade, ainda há algum outro distúrbio psiquiátrico relacionado, como fobias, síndrome do pânico, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtorno de personalidade e transtorno do deficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

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Quais são os principais sintomas?

No transtorno bipolar as mudanças de humor podem ser bruscas, mas a duração de cada episódio, não. A depressão é geralmente igual ou superior a 15 dias (podendo chegar a 2 anos), a mania dura pelo menos uma semana e a hipomania (euforia leve) demora ao menos quatro dias. E tudo isso é intercalado com fases de normalidade. Na mania observam-se: humor alegre, ideação rápida e movimentação exagerada, ao passo que na depressão observam-se: humor triste, ideação lenta e movimentação demorada.

O transtorno divide-se em alguns tipos:

Transtorno bipolar tipo 1: O portador do distúrbio apresenta períodos de mania, que duram, no mínimo, sete dias, e fases de humor deprimido, que se estendem de duas semanas a vários meses. Tanto na mania quanto na depressão, os sintomas são intensos e provocam profundas mudanças comportamentais e de conduta, que podem comprometer não só os relacionamentos familiares, afetivos e sociais, como também o desempenho profissional, a posição econômica e a segurança do paciente e das pessoas que com ele convivem. O quadro pode ser grave a ponto de exigir internação hospitalar por causa do risco aumentado de suicídios e da incidência de complicações psiquiátricas.
Transtorno bipolar tipo 2: pacientes que nunca apresentaram episódios maníacos completos. Em vez disso, eles apresentam períodos de níveis elevados de energia e impulsividade que não são tão intensos como os da mania (chamado de hipomania), mas um estado mais leve de euforia, excitação, otimismo e, às vezes, de agressividade; sem prejuízo maior para o comportamento e as atividades do portador. Esses episódios se alternam com episódios de depressão.
Transtorno bipolar não especificado ou misto: Os sintomas sugerem o diagnóstico de transtorno bipolar, mas não são suficientes nem em número nem no tempo de duração para classificar a doença em um dos dois tipos anteriores.
Transtorno ciclotímico: envolve oscilações de humor menos graves. É marcado por oscilações crônicas do humor, que podem ocorrer até no mesmo dia. O paciente alterna sintomas de hipomania e de depressão leve que, muitas vezes, são entendidos como próprios de um temperamento instável ou irresponsável.
As pessoas com transtorno bipolar do tipo II ou ciclotimia podem ser diagnosticadas incorretamente como tendo apenas depressão.

 

 

Existe clareza diagnóstica ou é necessária a realização de diagnóstico diferencial?

Frequentemente o transtorno é confundido com a personalidade da pessoa e costuma evoluir para depressão. Basta uma única fase de hipomania ou mania, precedida ou não de qualquer tipo de depressão, para diagnosticar transtorno afetivo bipolar. Depois da primeira (hipo)mania geralmente alternam-se depressões e euforias de intensidade variável.
Apesar do interesse crescente na perturbação bipolar e do número cada vez maior de pesquisas quer ao nível do diagnóstico, da neurobiologia, da epidemiologia e do próprio tratamento, o distúrbio bipolar continua a ser tardiamente diagnosticado e inadequadamente tratado. Estima-se que apenas 1 em cada 4 casos sejam diagnosticados. O próprio desenvolvimento da perturbação pode por vezes induzir em erro – pode-se, por exemplo, ter de esperar alguns anos antes de surgir um episódio de mania, pelo que na ausência deste, se fará um diagnóstico de depressão e não de bipolaridade.
É obrigatório, quando se faz o diagnóstico, que se investigue a presença de transtornos de ansiedade. A suspeita dessa comorbidade deve ser ainda maior nos pacientes que não estejam respondendo satisfatoriamente ao tratamento e/ou tenham problemas relacionados com abuso de álcool ou drogas, visto que essa é a complicação mais comum nesses casos.

Como é o tratamento?

O tratamento deve ser contínuo, ou seja, para a vida toda. Normalmente são usados estabilizadores de humor, à base de lítio, anticonvulsivantes e/ou antipsicóticos. Não há como controlar a bipolaridade sem medicamentos, e eles devem ser usados sempre, não só nas crises. É importante lembrar que mesmo a curto prazo, o efeito dos medicamentos na depressão, na (hipo)mania ou no estado misto leva pelo menos duas a quatro semanas para ser significativo. A melhora completa pode levar alguns meses e depois disso é necessário manter as medicações usadas na fase aguda da doença por mais algumas semanas ou meses, dependendo da gravidade. Depois de melhorar por completo, não apenas parcialmente, o paciente segue para a fase de manutenção.
Além disso, fazer acompanhamento terapêutico com um psicólogo pode aumentar as chances de melhora. Essa necessidade, porém, é avaliada caso a caso.
A eletroconvulsoterapia deve ser considerada para pacientes graves ou resistentes a tratamento (para prevenir exaustão ou suicídio, pelo rápido tempo de ação) ou quando preferida pelo paciente. Além disso, é o tratamento potencial para pacientes com episódios mistos, idosos e que apresentam mania grave durante a gestação.

 

Quais os medicamentos?

Estabilizadores do humor são os remédios mais importantes e devem ser usados a partir do diagnóstico de transtorno bipolar. Controlam o processo de ciclagem de um episódio a outro, reduzindo a quantidade de depressões e (hipo)manias e a gravidade delas. Eles variam entre si no efeito antidepressivo e antimaníaco. Os mais estudados e bem conhecidos são o carbonato de lítio (o único com efeito na prevenção do suicídio), a carbamazepina e o ácido valpróico. Com exceção do lítio, todos eles são também usados como anticonvulsivantes (remédios para tratar epilepsia).
Antidepressivos são o tratamento indicado para as depressões. No paciente com transtorno do humor bipolar o médico primeiro introduz o estabilizador do humor e se não melhorar associa um antidepressivo. Esta cautela reduz o risco de ciclagem para euforia, que os antidepressivos podem desencadear. Se isso acontecer, demorará mais para controlar a doença a longo prazo.
Antipsicóticos são medicamentos de efeito antimaníaco e antipsicótico. Podem ser usados durante um episódio de depressão, mania ou estado misto se houver sintomas psicóticos. Sintomas psicóticos (alucinações e delírios) são mais frequentes em episódios de mania do que na depressão bipolar. A presença de sintomas psicóticos congruentes com o humor não prediz desfecho mais favorável, e idade de início precoce da mania psicótica sugere maior gravidade do transtorno. Na presença de sintomas psicóticos, o clínico tende a associar medicamentos antipsicóticos, embora não sejam absolutamente necessários; assim, deve-se dar preferência aos atípicos pelos efeitos colaterais mais benignos. Os antipsicóticos mais usados são a risperidona e a olanzapina.
Tranquilizantes representam substâncias com ação hipnótica ou tranquilizante, que devem ser usados temporariamente, enquanto os estabilizadores do humor não fizerem efeito. Os principais são os benzodiazepínicos, como clonazepam e o lorazepam.

O que evitar?

Os psiquiatras recomendam, ainda, abstinência de cafeína, nicotina e álcool, e redução do açúcar da dieta. Remédios emagrecedores, antigripais, antialérgicos ou analgésicos e outros estimulantes do sistema nervoso central devem ser abolidos, pois eles podem ser o estopim de novo episódio da doença. Além disso, mudanças no sono ou redução do tempo total de sono podem desestabilizar a doença.


Qual o prognóstico?

Os prognósticos são variáveis, entretanto, com os cuidados necessários, as pessoas com transtorno bipolar podem levar uma vida normal e bastante produtiva. A adesão ao tratamento precisa ser muito bem trabalhada, com o paciente e a família; eles devem ser esclarecidos e orientados, pois muitas vezes precisam mudar todo um estilo de vida.

Como ajudar um portador do transtorno?


 A comunicação entre a família e o médico assistente é essencial, especialmente para reportar suspeita de ideias de suicídio e desesperança. Também se deve  compartilhar com outros membros da família o cuidado com o paciente além de se  estabelecer algumas regras de proteção durante fases de normalidade do humor, como retenção de cheques e cartões de crédito em fase de mania; auxiliar a manter boa higiene de sono. A família pode precisar também de acompanhamento psicoterápico, por duas diferentes razões: primeira, porque o distúrbio pode afetar todos que convivem diretamente com o paciente; segunda, porque precisa ser orientada sobre como lidar no dia a dia com os portadores do transtorno. Pois para aumentar o sucesso do tratamento é preciso esclarecer ao paciente e familiares os sintomas da doença, suas causas, como ela pode seguir durante a vida da pessoa, quais os riscos, que atitudes tomar durante a depressão e na mania e, como se preparar para as recorrências.
Na orientação acerca da doença também deve ser abordado o preconceito (por exemplo, evitar dizer que o paciente está “louco”); solucionar dúvidas e compreensões ajuda a diminuí-lo, mas só o tempo poderá eliminá-lo de vez. Infelizmente pacientes e famílias sofrem durante anos acumulando ressentimentos, queda do poder aquisitivo, atraso na formação, antes da aceitação do diagnóstico e do tratamento. Outra questão a ser aprendida é como lidar com uma nova crise. Cuidar da decepção, da frustração, da desesperança e prevenir consequências agravantes são fundamentais na recuperação do portador.

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