Trauma crânio-maxilo-facial e cervical

há 1 ano     -     
Trauma crânio-maxilo-facial e cervical

Trauma crânio-maxilo-facial e cervical

Lucas Rodrigues Dos Santos  (Cirurgia e Traumatologia  Buco-maxilo-facial e ligante da LATEU)


 

A doença trauma é um problema mundial de saúde pública. Segundo dados da Organização mundial de saúde (OMS), as lesões em cabeça podem representar metade das mortes traumáticas. Porém a morte por trauma é uma pequena porção real do problema. Diariamente, centenas de pacientes, vítimas de traumas não fatais são levados ou procuram hospitais e UPAs, milhões são gastos, seja no atendimento direto ou indireto, quando da impossibilidade de o individuo continuar a executar seus trabalhos diários, afetando toda a cadeia produtiva e provocando prejuízos ao sistema de saúde e ao orçamento familiar.

A assistência ao paciente politraumatizado, no geral, deve seguir o princípio do protocolo do ABCDE do trauma, deixando para um segundo momento, o tratamento de lesões não ameaçadoras de vida. No entanto, jamais devemos deixar passar despercebido injúrias teciduais no exame secundário. O comprometimento das vias aéreas pode ser súbito e completo mas tembém pode insidioso e parcial. Os doentes inconscientes com trauma craniencefalico, aqueles torporosos por ação do álcool ou outras drogas e os portadores de lesões torácicas podem apresentar dificuldades ventilatórias. É comum a presença concomitante de obstrução das vias aéreas, de hemorragia severa e de lesões intracranianas e da coluna cervical. Todas as vítimas de trauma severo de face devem ser consideradas como tendo lesão de coluna cervical até realizarem exames radiológicos que eliminem esta hipótese.

A Fratura bilateral de mandíbula, por exemplo, pode obstruir a passagem de ar pela hipofaringe levando a um quadro angustiante de sufocamento em pacientes conscientes.

Saber o mecanismo de injúria é muito importante para a equipe que vai atender a vítima. A anamnese deve focar dados que facilitem o diagnóstico e a ação das equipes de emergência, como queixas visuais, parestesia ou anestesia facial e a capacidade para morder.

O tipo da fratura da cabeça e sua extensão são determinados por fatores anatômicos de forma, tamanho, densidade das estruturas ósseas e suas relações com as cavidades ósseas, estruturas musculares e tecido mole que o reveste. Os pacientes de vítimas de trauma podem apresentar fraturas severas de face, com comprometimento neurológico e devem receber atendimento especializado em situações particulares. Sinais e sitomas como rebaixamento do nível de consciência, sinal de battle, sinal de guaxinin, otorreia e rinorreia devem alertar o profissional no primeiro atendimento. Condições que ameaçem a vida do paciente devem ser prontamente analisadas e conduzidas por um neurocirurgião, são elas fraturas da calota craniana, hematomas intracranianos com efeito de massa etc.  Outra questão, é que, uma agressão localizada na face não envolve apenas tecidos moles e ossos, mas também, por extensão, pode acometer olhos, seios e dentição. Quando o trauma ocorre por impacto de grande velocidade e energia cinética, lesões concomitantes, que podem ser mais letais do que o trauma facial por si só. Traumas oculares devem ser sempre inspecionados pelo medico oftalmologista. Durante o primeiro atendimento, não fazer qualquer pressão sobre o globo ocular, lembrando-se de que até a mais suave pressão pode causar perda de líquidos vitais ao olho traumatizado. Queixas como dor retrorbitaria, proptose, diminuição da acuidade visual, oftalmoplegia, são compatives com o quadro de síndrome do ápice orbitário que, apesar de não levar a óbito, requer intervenção de urgência. O atraso no diagnóstico pode trazer prejuízos irreversíveis ao pacientes. 

A maior incidência de traumas de face encontra-se nos acidentes com condutores de motocicletas. No caso de suspeita de fraturas no víscêrocrânio (face) um cirurgião bucomaxilofacial deve ser consultado. Os traumatismos podem ocorrer em diferentes localizações da face, uma vez que dependem do tipo de injuria, da direção e da forma de impacto. E importante saber que, para o sucesso do tratamento do trauma, o fator tempo muitas vezes e determinante. Resultados cirúrgicos são mais satisfatórios quando abordados no momento certo, evitando má consolidação óssea ou defeitos de tegumento por exemplo. Quando o arcabouço facial e fraturado, restabelecer o contorno anatômico e a estética facial além de devolver as funções nasal, ocular e mastigatória são mandatórias. Os princípios básicos no tratamento de fraturas são: Reducao dos cotos, imobilização e fixação.

O trauma cervical também e muito comum estar associado em paciente com lesão na cabeça, visto que são estruturas continuas. O exame físico é preponderante e sempre que suscitar suspeitas a imobilização deve ser mantida e exame de imagem deve ser solicitado. O trauma cervical fechado ou penetrante pode causar ruptura da laringe ou da traquéia, o que leva a obstrução das vias aéreas ou sangramentos maciços para dentro da árvore tráqueo-brônquica. Nessas situações, torna-se imperativo, de imediato, um acesso definitivo as vias aéreas. Nos casos de instabilidade hemodinâmica, e que a causa for a lesão de vasos sanguíneos cervicais, a abordagem cirúrgica torna-se mandatória, devendo a cervicotomia exploradora ser realizada o quanto antes.

O melhor exame a ser solicitado no caso de traumatismo em região de cabeça e pescoço e a tomografia computadorizada. Nela podemos observar a trajetória de vasos sanguíneos, a integridade da coluna cervical e evitar a sobreposição de estruturas na região de face e crânio o que comumente acontece nos exames simples de radiografia.

O trauma de cabeca e pescoco é uma realidade presente no serviço de emergência de um grande centro de referência de trauma, e acomete todas as idades. As causas são diretamente relacionadas com idade e tipo do trauma.

Uma atenção peculiar deve ser despendida pela equipe do trauma quando os pacientes apresentam sinais e sintomas que as regiões de cabeça e pescoço foram alvos. Devido as complexidades das regiões citadas e as varias especialidades que nelas atuam, um diagnóstico precoce e a correta abordagem otimizam a resolução do caso.

A incidência de trauma cervicofacial pode ser reduzida nos adultos jovens por educação escolar, com ênfase no uso moderado de álcool e orientação para lidar com situações hostis, evitando-se a violência interpessoal. A otimização do design interno dos domicílios e uma assistência constante de familiares ou responsável são válidos principalmente para os idosos, cujo principal mecanismo de trauma é a queda. Uma maior utilização de cinto de segurança e uso de air bags por motoristas e capacetes que cubram toda a face de motociclistas e ciclistas são condutas de grande importância que devem ser sempre seguidas para se evitar conseqüências graves dos acidentes de trânsito.

 

Referências bibliográficas

•         Resident Manual of Trauma to the Face, Head, and Neck. First Edition. American Academy of Otolaryngology—Head and Neck Surgery Foundation. 2012.

•         Bailey,BJ. Head and Neck Surgery-Otolaryngology. Philadelphia, JB Lippincott Company, 2001, vol. 1, cap.65-69.

 

•         Rocha DL, Manganello-Souza LC. Tratamento cirúrgico do trauma bucomaxilofacial. 3a ed. São Paulo: Roca; 2006.

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